Um poema sobre meu privilégio e apontando para a profunda solidariedade.
Can't waste a day when the night brings a hearse.
(Não se pode desperdiçar um dia quando a noite nos traz um caixão)
(Não se pode desperdiçar um dia quando a noite nos traz um caixão)
Rage Against the Machine, 1996, "Down Rodeo"
A cada instante, minha existência é a de um jovem morto,
Não porque, pelo meu drama pessoal, o suposto desamor dos que me cercam,
O ego deste homem branco de classe média,
esteja outra vez ferido,
Desta vez não me engano:
A cada dia, meu dia é um dia roubado de um jovem que morreu.
Não qualquer jovem, mas, em 77 de cada 100 dias, é o dia roubado de um jovem negro,
E cada dia que lhe foi roubado, que ele não viveu,
Determina como eu vivo todos os dias.
Não digo para me culpar,
Pois culpa não muda nada e assim desperdiça tempo
E espero que o leitor e a leitora, já nesta terceira estrofe,
Saibam que tempo desperdiçaria eu, me culpando pela morte de um jovem negro.
Seria, precisamente, o tempo roubado e não vivido deste jovem negro.
Mas a questão da dívida tem de se colocar,
Se nos dizem que lhes devemos até as almas,
Por certo, não é por simples força de metáfora
E em nossa consciência pálida
De quem escuta o barulho de longe, e entre quatro paredes sabe
Que sua vida é benefício
Do cruel desperdício da vida do outro,
O que justifica nossa existência?
Como atrevo-me a viver pela morte?
Deve haver uma razão, além do fato de que
Eu sou eu
E desejo viver...
Precisa haver uma razão.
Procuraremos em vão...
E então deveremos morrer?
Fazer como se fosse
Tudo o que não é?
Como se o mundo girasse ao redor do tribunal deste incondenável homem branco?
E o que desperdiçaríamos?
Não, não... vivamos!
E tratemos de não perder mais nenhum segundo
Esquecendo que cada centésimo é como é porque outro foi roubado
De um jovem de mesma idade,
E cor diferente.