quarta-feira, 8 de março de 2017

Vida roubada

Um poema sobre meu privilégio e apontando para a profunda solidariedade.
 
Can't waste a day when the night brings a hearse.
(Não se pode desperdiçar um dia quando a noite nos traz um caixão)
Rage Against the Machine, 1996, "Down Rodeo"


A cada instante, minha existência é a de um jovem morto,
Não porque, pelo meu drama pessoal, o suposto desamor dos que me cercam,
O ego deste homem branco de classe média,
esteja outra vez ferido,
Desta vez não me engano:

A cada dia, meu dia é um dia roubado de um jovem que morreu.
Não qualquer jovem, mas, em 77 de cada 100 dias, é o dia roubado de um jovem negro,
E cada dia que lhe foi roubado, que ele não viveu,
Determina como eu vivo todos os dias.

Não digo para me culpar,
Pois culpa não muda nada e assim desperdiça tempo
E espero que o leitor e a leitora, já nesta terceira estrofe,
Saibam que tempo desperdiçaria eu, me culpando pela morte de um jovem negro.
Seria, precisamente, o tempo roubado e não vivido deste jovem negro.

Mas a questão da dívida tem de se colocar,
Se nos dizem que lhes devemos até as almas,
Por certo, não é por simples força de metáfora
E em nossa consciência pálida
De quem escuta o barulho de longe, e entre quatro paredes sabe
Que sua vida é benefício
Do cruel desperdício da vida do outro,
O que justifica nossa existência?

Como atrevo-me a viver pela morte?
Deve haver uma razão, além do fato de que
Eu sou eu
E desejo viver...
Precisa haver uma razão.

Procuraremos em vão...
E então deveremos morrer?
Fazer como se fosse
Tudo o que não é?
Como se o mundo girasse ao redor do tribunal deste incondenável homem branco?
E o que desperdiçaríamos?

Não, não... vivamos!
E tratemos de não perder mais nenhum segundo
Esquecendo que cada centésimo é como é porque outro foi roubado
De um jovem de mesma idade,
E cor diferente.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Inícios de uma formação de intenção revolucionária

    Hoje pensei que uma abordagem mais séria das coisas que este blog pretendia deve conter a ideia de formação. Isso, ao menos, torna mais acessível a sua ideia geral (que, salvo engano, fora chamada de ressubjetivação).

   Gostaria de tratar de alguns princípios que devem servir à formação radical. Rapidamente, imaginei que devem haver elementos de eficiência - contidos no velho princípio "Âo-Rukas-J luvêr KJ" - e elementos de ruptura ética, que tratem de constituir os atributos psicológicos que julgamos interessantes especificamente para a coletividade de intenção revolucionária-autogestionária.
   
    O primeiro elemento de eficiência que quero submeter a teste anedótico é:

    E1) A revisão do cotidiano (etapas operacionais: 1ª revisão de práticas cotidianas com as quais acreditamos desperdiçar tempo; 2ª verificação das necessidades às quais supostamente atendemos com elas; 3ª reorientação econômica das mesmas; 4ª avaliação).
      Obs.: para operacionalização, talvez seja importante fazer uma lista para a 1ª etapa, e uma retomada diária dos objetivos estabelecidos na 3ª etapa na primeira quinzena ou mês (avaliar posteriormente).

    O primeiro elemento de ruptura ética que quero submeter a teste anedótico é:

   R1) A ruptura da bolha (etapas operacionais: 1ª análise de implicação individual - verificação dos recursos pessoais extra-subsistência que estão sendo destinados de maneira incoerente com a intenção revolucionária; 2ª verificação das necessidades às quais supostamente atendemos com elas; 3ª reorientação econômica das mesmas; 4ª avaliação).
   Obs.: trata-se de um procedimento difícil, mas é preciso ter confiança de que a ruptura pode produzir importantes mudanças na configuração motivacional.

    Escrevo em breve algo sobre os resultados desta experiência.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Nível de ativação: aquecimento, motivação, autoeficácia, autorresponsabilização e máquinas semelhantes.

   Não reservei tempo para escrever e acabo de decidir terminar este texto até às 20 horas.
   Diminuo, portanto, o nível de precisão do que escrevo e peço que aceitemos que funcione como uma "narrativa-de-ferramenta".

    Nível de ativação é a semiótica que se refere às contingências favoráveis à produção e/ou à entrada em tarefa decorrentes da própria entrada em atividade. Tratam-se de condições psicossomáticas autônomas simpáticas e cognitivas de autoeficácia.

    O aquecimento psicodramático é uma máquina que aumenta o nível de ativação, através de uma modulação da tarefa. O objetivo é que a atividade posterior seja beneficiada por um alto nível de ativação do coletivo.

    A autoeficácia é uma máquina semiótica a partir da qual um organismo favorece a própria entrada em tarefa graças às experiências anteriores de sucesso associadas à sua ação. Muito semelhante a um processo de reforçamento operante, possui, entretanto, uma ênfase na máquina individual, ou seja, um processo consciente em que uma semiótica de "Eu" funciona como causa suposta de outros processos.

    Neste momento, vivo um alto nível de ativação e experiencio o quanto é importante atentar para o mesmo. Sempre que precisarmos entrar em tarefa, organizar, produzir muito, vencer dificuldades de tempo e recursos, e que acreditemos que precisaremos do maior ganho possível do organismo, é interessante colocar máquinas que aqueçam, ou seja, que aumentem algo "artificialmente" o nível ativação: experiências de autoeficácia com jogos, lazer, música, exercícios melhoram o clima para a realização de todo tipo de atividades.

    24 de agosto de 2015.